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[Resenha] A filha – Jane Shemilt

Resenha 2

O que dizer dessa editora que já chegou arrasando meu coração? Primeiro foram três edições maravilhosas de O Pequeno Príncipe e agora foi esse livro que acabou comigo, de todas as formas possíveis. E não vamos nem começar a falar da autora. Não é à toa que ela foi finalista em dois prêmios de literatura.

A filha foto

Mas tudo bem, vamos conversar sobre esse livro e também sobre a vida. O quanto você conhece as pessoas que estão ao seu redor? Sua família, seus amigos, as pessoas com quem cruza na rua… Jenny tem certeza que conhece todos a sua volta muito bem. Conhece seu marido, o neurologista super competente (Ted), conhece seus dois filhos gêmeos, um super alegre e artista (Theo) e outro campeão de remo com um futuro super promissor (Ed), e também conhece sua filha mais nova, amável e ótima atriz (Naomi). Mais do que isso, Jenny acredita ter a vida perfeita. É mãe, médica, esposa e artista.

Só que tudo tem fim em uma única noite.

Naomi tem uma festa após sua apresentação no teatro, ela vai sair com os amigos e chegará um pouco mais tarde. Só que ela nunca aparece. Jenny se desespera, porque sua amada filha nunca chega após o horário que promete voltar, e sempre a avisa quando um imprevisto acontece. De início, todos acham que ela está exagerando, mas após horas e nenhum sinal, as pessoas começam a perceber que é sério. Naomi está desaparecida.

Uma força policial é designada para investigar o caso e isso significa revirar a vida de Naomi em todos os aspectos possíveis. Esse livro me lembrou muito o Reconstruindo Amélia e me destruiu tanto quanto ele. Assim como a mãe de Reconstruindo Amélia, Jenny descobre coisas sobre a filha que nunca imaginou. E tendo sua vida revirada, ela percebe que Naomi não é a única pessoa na sua casa que ela não conhece mais.

Esse livro me fez pensar em família e em pessoas. Em cima de quantas mentiras nós nos construímos? Em cima de quantas dela uma família se sustenta? Esse é o tipo de história que acontece todos os dias e por ser tão real, nos quebra tanto. Existem muitos pais que se concentram mais no próprio trabalho do que em qualquer outra coisa, que simplesmente fecham os olhos para os filhos e o que acontece com eles, que se escondem na desculpa de que os filhos precisam ser independentes e crescerem sozinhos, pais que confundem espaço com abandono, que acreditam que dinheiro e bens materiais podem substituir afeto e carinho. E isso é tão errado!

Ninguém nunca disse que os pais precisam se dedicar integralmente aos filhos, porque eles não devem. E nem podem. Mas eles também não devem abandoná-los. Só que o que tem acontecido ultimamente, principalmente com a ideia de independência das mulheres, as pessoas tem confundido as coisas. Veja bem, antes eram os homens que trabalhavam fora de casa e as mães ficavam o tempo todo em casa, concentradas na casa e nos filhos. Existia alguém ali. Mas então elas saíram. E os filhos foram deixados para aprender a viver sozinhos. Não pense que eu sou alguém a favor das mulheres ficarem em casa o dia todo sem poder trabalhar fora porque tem que cuidar dos filhos. Claro que não. Eu sou o tipo de mulher que não aguentaria ficar vinte e quatro horas cuidando de casa. O que eu quero dizer é que ninguém se preparou para todas essas mudanças.

As mulheres resolveram trabalhar fora de casa e os homens continuaram a trabalhar como se nada tivesse acontecido, porque é isso que eles sempre fizeram. A responsabilidade deles é trabalhar e colocar dinheiro em casa, certo? Errado! A responsabilidade deles também é cuidar dos filhos, assim como a mãe. Só que as pessoas parecem nunca terem se dado conta disso. Quando Naomi desapareceu, a culpa recaiu sobre Jenny, a mãe que nunca estava em casa e não dava atenção para os filhos. Ninguém falou que Ted também estava errado, que ele deveria chegar tarde menos vezes, que ele deveria deixar de ser um idiota, que ele deveria abrir não de seu trabalho para ficar em casa. E isso é tão absurdo! Mas mesmo sendo absurdo, isso fez com que Jenny se sentisse culpada. E enquanto seu marido superava tudo muito fácil e seguia com sua vida, ela se culpou e nunca desistiu de achar a filha.

Claro que não digo que ela estava certa, porque ela não estava. Ninguém ficou sem culpa nisso tudo. Ted passava mais tempo no hospital que em casa, não dava importância para a família, se perdia em “deslizes” e escondia da sua mulher coisas que não devia. Jenny optava por fechar os olhos para tudo que acontecia a sua volta e ignorava os filhos quando eles a procuravam. Nenhum dos dois conheciam as crianças que tinham em casa. E pareciam não perceber isso. Pareciam sequer se importar. Só se deram conta quando era tarde demais.

Certo, acho que me perdi escrevendo essa resenha, mas isso é comum de acontecer quando o livro é marcante de dezenas de maneiras diferentes. Porque A Filha é marcante, marcante como poucos livros podem ser. Nos mostra como momentos podem ser perdidos, como certas coisas não podem ser recuperadas, como pequenas decisões podem mudar tudo, como fechar os olhos sempre tem consequências, como as vezes, tudo que as pessoas querem é serem amadas. Esse livro nos mostra que a vida é simples e somos nós quem a tornamos complicada e destruímos. Muitas vezes temos a chance de ser felizes e estragamos tudo. Damos importância ao que é efêmero e nos esquecemos do que realmente pode ser eterno. E o pior de tudo, é que quando nos damos conta do erro, nem sempre podemos voltar atrás.

Eu vi algumas resenhas do livro falando que o final foi forçado e sem sentido e, cara, a única conclusão que eu tiro é que essas pessoas não entenderam nada. Porque nós podemos ter tudo narrado apenas na visão de Jenny, mas isso não faz com que sejamos incapazes de saber o que se passa na cabeça dos outros personagens. Quando tudo acabou, quando eu fechei o livro, eu soube e entendi cada coisinha que se passou na cabeça deles. Sofri com eles. E percebi que, por mais “cruel” que tenha sido o final, ele foi fiel ao desejo de cada um. Porque as vezes, por mais perturbador que seja, o que todas as pessoas querem é ser amadas, independente das consequências.

A Filha é excepcional, assim como Jane Shemilt. O livro é desesperador de bilhares de maneiras diferentes e senti vontade de chorar em tantas páginas que perdi as contas. O desespero de Jenny é tão real que as vezes tudo que eu queria era entrar no livro, abraça-la e chorar com ela. Eu sentia raiva dos seus erros e me perguntava como ela poderia ter sido tão idiota em relação a tantas coisas, mas ao mesmo tempo, eu queria dizer para ela que as pessoas erram e que sentia muito por tudo. Assim como em Reconstruindo Amélia, eu quis que ela tivesse uma nova chance, porque eu sabia que dessa vez ela faria tudo diferente. Eu sabia que ela tinha aprendido.

E quando fechei o livro e agora, enquanto escrevo essa resenha, mesmo não sendo a maior fã de crianças e mesmo não pretendendo ter filhos tão cedo, tudo o que eu desejo é que no futuro, se algum dia eu for mãe, eu consiga perceber as vezes que cometer erros. Desejo não ser a mãe de quem os filhos escondem tudo, a mãe que os filhos odeiam e não suportam escutar a voz, aquela que faz com que eles desejem passar mais tempo fora de casa que dentro dela, o tipo de mãe que não consegue amar seus filhos por quem eles são, que tenta transformá-los no que ela quer que eles sejam.

Definitivamente, eu recomendo esse livro. Mais do que isso, eu o coloco na minha lista de favoritos, bem ao lado de Reconstruindo Amélia. E pergunto, a você e a mim, o quanto nós conhecemos as pessoas que amamos?

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