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[Resenha] Café – Mário de Andrade

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Eu acredito que forçar alguém a fazer alguma coisa é a pior forma de conseguir o que se quer. Mas por alguma razão, alguém parece ter dito aos professores de literatura que isso é uma boa ideia. E assim, com meus nove anos, livros clássicos já estavam sendo empurrados para mim na escola. Agora imagine, uma criança de nove anos, ainda se acostumando com o português e tudo mais, sendo obrigada a ler livros com um português bem diferente e um tanto quanto complicado.

Foi assim que comecei a minha vida repudiando livros. Ler? Céus, me dava até agonia de pensar. Por que eu leria se poderia ver um filme com a mesma estória? Pensei assim por muito tempo, até que no início do meu ensino médio, uma professora de português falou sobre Crepúsculo e metade da minha sala sabia o que era. E eu fiquei “O que é isso?”. Bem, fui ler Crepúsculo e eu AMEI aquilo. Li em dois dias, quando tinha levado um ano para terminar Harry Potter (não me matem!).

Então, Crepúsculo me trouxe para esse mundo que hoje me consome. Ou seja, falem o que quiserem do romance bobinho de vampiros, mas foi ele que me fez amar ler, me fez ver que livros são maravilhosos e guardam um mundo além. Mas mesmo amando ler, eu ainda fiquei com um pé atrás com clássicos. E por isso, Café foi mais que uma leitura para mim: foi uma experiência!

Café-Mário-de-Andrade

Bem, para quem deu uma cochilada nas aulas de literatura, Mário de Andrade é um autor modernista, que participou da semana de 21 (vulgo semana de arte moderna), que reuniu tudo quanto é tipo de artista em um teatro (Era mesmo um teatro? A memória já está falhando) super gato de São Paulo (lembro da foto no meu livro). E tudo o que eles queriam era quebrar com as “tradições” da arte e criticar a burguesia (lembro de um texto bem tenso que chamava Os Sapos, ou algo parecido).

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Agora vamos analisar isso de quebrar com as tradições.

Antigamente, tudo tinha uma forma certa para ser feita. Poemas tinham métricas, pinturas tinham “escolas”. E então os modernistas resolveram que iriam fazer da forma deles e ponto final. O resultado disso? Um escândalo para a época e uma disparidade enorme com o que tínhamos antes. E isso está super presente em Café. Na escrita e principalmente na forma (o que me machucou um pouquinho).

Mário faz parágrafos enormes (meu TOC quase enlouqueceu), escreve como se fala, tem frases começadas com letras minúsculas, tem pontos de exclamação no meio de frases… A lista é infinita. E não renegando a sua origem, a crítica a burguesia é pesada. Mas o interessante é que Café foi um livro escrito durante anos e vemos essas mudanças no decorrer do texto, principalmente em relação as criticas. No início elas são bem pesadas, mas com o passar do tempo elas se tornam mais leves e discretas.

abaporu

Outra coisa que foi um tanto quanto diferente para mim foi a abordagem dos personagens. Somos acostumados a um personagem principal com o circulo de amigos e alguns personagens que vemos dois segundos e desaparecem. Só que em Café a coisa é diferente. Se um personagem aparece, você vai saber a vida dele inteira. E é por causa disso que a primeira parte foi quase que um sacrilégio para mim.

Eu não sou fã de coisas prolixas, gosto que tudo seja bem objetivo, que passe a sua mensagem da forma mais clara e rápida possível. Mário não é nenhum pouco fã disso, rapidamente se percebe.

mario de andrade

No início somos apresentados a Chico Antônio, um nordestino que vai para São Paulo em busca de um grande amigo que considera como um pai. E Chico foi nosso protagonista na primeira parte. Acompanhamos a chegada dele em São Paulo, o encontro com o amigo, a volta pela cidade e a ida para o campo (sua nova casa). Tudo isso é pouco mais de um dia temporalmente, no entanto, no quesito páginas, isso compreende metade do livro, justamente pelo que mencionei anteriormente. No meio das andanças de Chico, Mário faz uma análise de tudo que está em volta. Analisa-se a cidade, as pessoas e as mudanças de como era antes e como era agora.

Nisso eu percebi um certo preconceito de Mário (ou quem sabe isso fosse realmente uma característica da época), porque MEU DEUS, as pessoas descritas por Mário são de longe muito burras. Como se o pensamento de todos fosse um tanto quanto limitado e seu raciocínio se limitasse ao agora, sem muitos planos para o futuro ou uma ideia de quem eles eram como pessoa. Ele descreve a população como meros vagantes, fantasmas que não tem rumo e não sabem para onde vão.

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Uma coisa que chamou atenção em Café também foi a forma como Mário desconstruiu São Paulo, porque quando pensamos em São Paulo, pensamos na metrópole cosmopolita onde tudo acontece e é simplesmente glamorosa. Mas Mário nos mostra a parte “feia”, onde as pessoas são fedidas, ladrões estão em cada esquina, moradores de rua enchem a praça, nordestinos tomam conta da cidade assim como italianos e a América (EUA) toma conta da economia. É diferente de mais do que eu estava acostumada e por isso foi interessante, mesmo que no geral a primeira parte não tivesse me agradado muito pela “limitação de pensamento” dos personagens.

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Outro traço do livro que revela um pouco de Mário é a tendência “sexual”. Porque para quem não sabe, durante muito tempo (e até hoje) foi discutido a possibilidade de Mário ser homossexual. Eu não sei se ele realmente era homossexual, mas no livro há certas relações entre homens ditos heterossexuais que soam um tanto quanto íntimas de mais, uma amizade um tanto quanto “florida”. E há uma presença grande dos comportamentos sexuais em si, de forma aberta e explicita. Não as cenas de sexo as quais os livros eróticos nos acostumaram, mas referencias abertas. Mesmo que digam que o sexo era tabu antigamente, a sexualidade descrita no livro pareceu mais vulgar do que a sexualidade a qual estamos acostumados nos dias de hoje.

Mário se força a ser baixo e vulgar, força sua linguagem a ficar ao nível das pessoas que ele descreve, as pessoas que a inteligência deixa a desejar.

Já a segunda parte foi a que realmente me interessou. Ela foi a parte menos trabalhada do livro e se focou em outros personagens (mais especificamente as pessoas para quem o amigo de Chico Antônio trabalhava), e esses personagens (graças a Deus) eram menos “retardados” que os anteriores.

Da esquerda para direita: Couto de Barros, Manuel Bandeiras, M‡rio de Andrade, Paulo Prado, RenŽ Thiollier, Graa Aranha, Manuel Villaboim, Gofredo Silva Telles, C‰ndido Mota Filho, Rubens Borba de Moraes, Lu’s Aranha, T‡cito de Almeida e Oswald de Andrade.
Da esquerda para direita: Couto de Barros, Manuel Bandeiras, M‡rio de Andrade, Paulo Prado, RenŽ Thiollier, Graa Aranha, Manuel Villaboim, Gofredo Silva Telles, C‰ndido Mota Filho, Rubens Borba de Moraes, Lu’s Aranha, T‡cito de Almeida e Oswald de Andrade.

A segunda parte contou a história de uma família que morava no campo e resolve ir para a cidade para aproveitar a “modernidade” e o glamour da cidade. Foca-se basicamente na vida das duas irmãs: a Clara e a Vivi. A Clara aquela filha meiga e legal e Vivi, a filha que coloca fogo em goteira e não é nada santa, nem legal.

Gostei muito da Clara e me identifiquei horrores com ela, apesar de às vezes achar ela pamonha de mais para o meu gosto. No entanto, com o decorrer do tempo, ela melhora muito e cria fibra de gente. Eu gostei BASTANTE dessa segunda parte, se assemelhou mais aos tipos de livros que temos atualmente. Teve intriga de família, teve intriga de tudo quanto é jeito e foi muito bom.

Eu sinceramente me apaixonei pelo casal Clara e Fernando. Eles fizeram um casal muito lindo que surgiu de forma inusitada. Foi o tipo de casamento “Ah, eu não estou fazendo nada e você também não… Vamos casar?”. Sim, um casamento muito estranho, mas então eles começaram a se dar bem e tudo ficou bonitinho. Algumas vezes eu quis bater no Fernando, mas em comparação com todos ali e considerando o machismo da época (pensa em um livro LOTADO de machismo), o Fernando era amorzinho. E quanto ao resto da família, quis bater em Vivi e nos pais das duas irmãs, porque CÉUS, eles nunca colocaram limite na Vivi e deixavam ela fazer tudo, porque na cabeça deles, a Vivi era a mais bonita e merecia o melhor da vida. Uma coisa bem ridícula, diga-se de passagem, porque Vivi se achava de mais!!

Bem, apesar de muitos trancos e barrancos, de uma leitura que demorou mais do que deveria, eu gostei de Café. Não fui muito fã da primeira parte, mas adorei a segunda. O livro deveria ter cinco partes, no entanto, apesar de 20 anos escrevendo, Mário morreu sem terminar. Então você pensa: “Então o livro está incompleto”. A resposta é sim e não. Sim, porque não tem todas as partes que deveria ter, mas não, porque a estória tem inicio, meio e fim. Eu acredito que nas partes seguintes, Mário pretendia dar enfoque a outros personagens, assim como fez na sua divisão das duas primeiras partes. Mas para mim, o livro está muito bem completo dessa forma, e, além do mais, acho que se ainda tivesse mais três partes, o livro se tornaria um tanto quanto cansativo e difícil de ler. Um livro só para aqueles que são realmente amantes da literatura clássica. O que sinceramente, não seria o meu caso.

mario

Outro ponto interessante que gostaria de mencionar é a edição. Veja bem, o exemplar de Café publicado pela Editora Nova Fronteira não tem apenas o manuscrito de Mário, ele tem também uma “introdução” para o que vamos ler. E essa introdução é um trabalho academico sobre o manuscrito. Ou seja, lemos partes de cartar enviadas e recebidas por Mário durante todos os anos em que esteve escrevendo o livro. Conhecemos um pouco do Mário escritor, de seu processo de escrita e seu perfeccionismo ao escrever. E foi nessa “introdução” que eu comecei a amar Mário, para depois questionar meu amor na primeira parte e voltar a amar na segunda. Para mim, o único problema de Mário (assim como da maioria dos escritores) é sua habilidade para protelar o que deve ser feito. Ele poderia ter terminado Café e lançado muitos outros livros se tivesse simplesmente sentado em frente a sua máquina de escrever e escrito. E se ele tivesse continuado na linha da segunda parte de Café, cara, eu seria uma super fã desse homem que mal conheço e já respeito. Mas ele resolveu não escrever tanto quanto deveria. E morrer sem terminar. Muito triste isso.

Bem, chega. Já escrevi de mais. Leiam café e me entendam. Coloquem as mãos nessa edição lindinha que além de ter o manuscrito e uma introdução super entendida da coisa, ainda tem Dossiê (vulgo anexo) com uma seleção de imagens das fases de criação do romance Café. Muito legal e completo!

E vocês, gostam de clássicos? Já leram algo de Mário?

Beijos!

Laury

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