Textos

De novo e de novo

Isso é tão chato, sabia? Tudo seria mais fácil se eu, você e o resto do mundo tivéssemos um chip. Sim, um chip com todas as nossas informações importantes. Minha comida favorita, o livro que me faz chorar, aquele que me faz desejar acender um isqueiro e queimá-lo, a cor que mais gosto, as manias que repudio e as que acho fofas. Deveria dizer o quanto pego manias com facilidade, o quanto sou terrível para decorar nomes, como falo sozinha e como sou possessiva. Deveria ter tudo isso e um pouco mais.

E então nós uniríamos os chips e veríamos a compatibilidade. Se você tivesse as manias que tanto odeio, já poderíamos seguir em frente sem começar algo que definitivamente não iria durar. Já pensou quantos relacionamentos fadados ao fracasso não seriam evitados?

Se fossemos compatíveis, então tínhamos que simplesmente fazer a atualização para conhecer o outro. Cada detalhe. Seria tão mais fácil! Porque a verdade é que o difícil não é terminar. Ah, não. Terminar é horrível e doloroso, mas é único. Você termina, você chora e você sofre e então acabou. O difícil é começar.

Recomeçar de novo e de novo.

Você precisa conhecer outra pessoa, precisa falar sobre você, explicar porque gosta disso e porque não gosta daquilo. Então a pessoa faz aquilo que você mais odeia e você tem vontade de gritar para que ela não faça isso, que você já disse mil vezes que não gosta. E então, você percebe que não disse mil vezes, que na verdade, você não disse nenhuma vez sequer. Então você percebe que aquela é… O que? Você já perdeu até mesmo as contas.

A paciência vai diminuindo na mesma proporção que o número cresce. Você se cansa de contar tudo sobre você, porque sabe que aquele relacionamento vai dar errado, da mesma forma que os outros deram. Se cansa de saber tudo sobre a outra pessoa também, afinal, para quê se dar ao trabalho, não é mesmo?

E então você percebe porque tantas pessoas que conhece permanecem em relacionamentos falidos, porque aceitam tantas coisas sem dizerem nada. É quando você entende o que elas nunca lhe disseram: recomeçar é uma droga!

Mas então você lembra de todas essas pessoas que nunca te disseram que recomeçar é uma droga, as mesmas pessoas que parecem sempre melancólicas e insatisfeitas e raivosas.  Você entende que recomeçar é uma droga. Ah, você entende completamente. Mas também percebe que aceitar a própria infelicidade é uma droga maior ainda.

Então você sorri, respira fundo e repete de novo e de novo tudo aquilo que você é, do que gosta e do que não gosta, na esperança que aquela seja a última vez.

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