Textos

Cinco anos

Há cinco anos, eu não parei para pensar em onde eu estaria nos próximos cinco anos, mas em algum lugar da minha mente, eu imaginava que você estaria nesse futuro. Mesmo que poucas vezes, mesmo que uma vez no ano, eu imaginava ver o seu rosto. Mas você não esteve aqui. Em nenhum dia desses cinco anos que se seguiram.

As vezes é engraçado pensar que pessoas que significam tanto podem simplesmente desaparecer. E triste também. Sua melhor amiga. O amor da sua vida. Sua fonte de inspiração. Aquele seu professor que te fez amar aquela matéria idiota. Todas as pessoas que fizeram de você quem você é, mas que de repente… Não são mais parte da sua vida.

E é tudo tão gradual…

Vocês se veem todo dia, depois uma vez na semana, então mensalmente, anualmente… Nunca mais. Colocamos a culpa no tempo, na correria… Em tanta coisa que no fim é apenas uma desculpa. Porque a verdade é aquele velho ditado: quem quer, arruma uma forma.

E nós não arrumamos. Apenas esquecemos. Seguimos em frente.

Será que seguimos?

Ás vezes me pergunto quem queremos enganar. Gritamos para os quatro ventos que colocamos um ponto final em tudo, mas eu e você sabemos que foi um ponto, depois outro e então mais outro. Aquela reticencia ridícula que é sempre completada com “E se tudo tivesse sido diferente?“. Nós sabemos como teria sido, ao menos sabemos como não teria sido.

Se tudo tivesse sido diferente, nós não ligaríamos um para o outro perguntando como teria sido. O que poderia ter sido. Mas a verdade é que não foi. E cinco anos depois eu acabo acreditando que não ter sido foi o melhor para nós dois. Porque a verdade é que nós nos esgotaríamos.

Você tinha tanta mágoa guardada, tanta coisa do passado que te deixava triste e eu… Bem, tudo o que eu queria era curar tudo isso. Fazer você parar de sentir raiva dele, não lembrar mais da morte dela, não desistir do futuro que ainda tinha. Queria que você cuidasse de você. Queria o seu bem mais que você mesmo. Eu era feliz com você e queria que isso fosse para sempre. Que você fosse para sempre. Mas então…

Quando tudo estava bem, quando por um momento, eu acreditava que você estava bem… Era como se tudo se apagasse novamente. Você se rendia a dor, a mágoa e a raiva. E tudo que eu podia fazer era olhá-lo desesperada. Era desejar que você voltasse a me escutar, obrigá-lo a me olhar nos olhos e repetir comigo que tudo ficaria bem.

Mas as vezes não ficava.

Lembro de quando tudo acabou. De como eu me desesperei e de como você foi infantil. Eu sempre soube que sua confiança era algo frágil por conta da sua mágoa, mas… duvidar de mim? Ah, como eu senti raiva! Como tudo que eu quis foi bater em você até deixar de ser idiota. No entanto, eu percebi que eu era a idiota. Era eu que tentava te salvar e era você que nunca queria ser salvo. Era eu que me desdobrava de todas as maneiras para vê-lo feliz e era você que fingia não se importar, porque no fundo morria de medo de ser magoado.

Só que fui eu a única magoada nessa história toda. E fui eu quem sempre saiu destruída dos telefonemas sobre o que teria sido. Você me ligava para ficar bem e quando eu te deixava bem… Aí as ligações simplesmente paravam.

E hoje, cinco anos depois, eu percebo que se tudo tivesse sido diferente, não seriam os telefonemas a me despedaçar, mas sim cada segundo do dia. Porque eu continuaria tentando salvá-lo e você continuaria tendo medo de ser magoado. E me magoaria. Como me magoou cinco anos atrás. E como me magoou cada vez que desligou o telefone por não precisar mais de mim. E talvez seja a hora de apagar dois pontos dessa história, talvez seja a hora de transformar essa reticencia em um ponto final bem marcado e definitivo.

em frente

É hora de parar de tentar salvá-lo e começar a salvar a mim mesma.

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