Filme

[O Jogo da Imitação] Qual o preço de ser diferente?

Os créditos apareceram na tela e lá estava eu, tentando controlar minhas lágrimas de tristeza, indignação e orgulho.

Parece um pouco idiota quando colocado em palavras, mas eu tenho certo prazer em chorar em livros, filmes e séries. Mas odeio quando sou enganada, quando sou forçada a chorar, quando aquilo foi feito para as lágrimas, mas não tanto assim para o sentimento. Se é para chorar, eu quero chorar por algum motivo, por algo que me faça sentir. E meu Deus, como esse filme me fez sentir!

Talvez eu goste de entretenimento que tenha sido baseado em fatos reais porque são mais crus, mais realidade. E convenhamos que não há nada mais dramático que a vida, que os dias que nascem com o sol. E o Jogo da Imitação foi um desses filmes.

Uma mistura de tudo que amo: romance, história, inteligência, amizade, crescimento pessoal e drama.

Nosso protagonista é Alan Turing e nosso “plano de fundo” é a Segunda Guerra Mundial. Eu sempre gostei de história e sempre tive grande amor pelas nossas duas grandes guerras, porque acredito que é em situações extremas que descobrimos quem as pessoas realmente são. E até esse momento, até esse filme, eu pensava que sabia tudo, cada mínimo detalhe dessas guerras, mas a verdade é que eu não sabia.

O grande inimigo na segunda guerra foi a Alemanha e o Nazismo comandado por Hitler. E Hitler foi muitas coisas, mas acima de tudo, ele era inteligente. Uniu um país aos pedaços e se preparou para uma guerra sob o nariz de todo mundo, sem ser percebido até que fosse tarde de mais e desenvolveu uma forma de comunicação singular para que ninguém soubesse o que faria.

O Enigma, a forma de criptografar dos Alemães que dá vida ao filme.

Alan é uma das pessoas encontradas que talvez sejam capazes de decifrar o Enigma, passando a fazer parte de uma equipe com as pessoas mais inteligentes da época. Enquanto eles tentam resolver tudo mentalmente, ele tenta construir uma maquina que idealizou há algum tempo, uma maquina capaz de resolver qualquer enigma. Enquanto tenta fazer a maquina, ele tem que passar por vários problemas e talvez o maior deles tenha sido mudar quem ele era.

Tendo sido diferente a maior parte da sua vida, Alan sofreu muito bullying e isso fez com que sua personalidade se destacasse e sua confiança nas pessoas diminuísse. Ele não tem amigos e não pretende fazer nenhum, e é um desafio para ele entender que se quiser vencer Enigma, ele precisará de ajuda.

Em diversos momentos Alan me lembrou Dr. House e foi impossível não amá-lo. Uma pessoa ríspida, sincera ao extremo e muitas vezes arrogante, mas que você sabia ter um coração tão grande quanto machucado. É ele quem conta sua história e ao final pergunta o que ele é. Uma pessoa, uma maquina, um herói ou um assassino.

Para mim Alan foi simplesmente espetacular. E talvez seja por isso que eu tenha me despedaçado tanto ao descobrir o final de sua história. Ao descobrir que tudo que ele fez, que todas as vidas que salvou e tudo que descobriu, foi simplesmente apagado da história porque Alan era gay.

Alan foi julgado e condenado por ser gay. Obrigado a se submeter a “tratamentos” para não ir para prisão. Uma castração química que destruiu tudo que ele era. Sua inteligência, seu brilho e sua vida. E tudo isso me faz perguntar o quanto os ingleses realmente foram diferentes de Hitler. Quantas pessoas eles não mataram por serem gays e diferentes do que eles achavam certo? Hitler também matou judeus, negros, ciganos e milhares de pessoas porque elas eram diferentes do que ele considerava como perfeito. Tudo não muito diferente do que acontece nos dias de hoje.

Os anos se passaram, mas as pessoas parecem ter ficado naqueles mesmos anos. Parecem não saber lidar com as diferenças da mesma forma que eles não sabiam. Alan foi uma pessoa extraordinária e mesmo assim apenas em 2013 recebeu o perdão real da rainha da Inglaterra. Sim, ele recebeu perdão, como se não fosse o país quem devesse pedir desculpas. Como se não fosse nós que tivéssemos que agradecer pelos anos de Guerra poupados, pelas vidas salvas e por todos os avanços tecnológicos que surgiram por causa dele e suas idéias.

Alan teve sua história mantida em segredo por cinquenta anos e hoje algumas pessoas têm a chance de conhecê-la, mas e as outras tantas pessoas que tiveram o mesmo fim dele por simplesmente serem diferentes? Milhares de pessoas que poderiam ter feito a diferença no mundo, mas sequer foram escutadas.

Eu chorei no filme e choro escrevendo isso, choro pensando em quantas vidas não são perdidas pela estupidez humana, que quando não consegue matar o corpo, faz questão de matar a alma. Todos deveriam ver esse filme, não só pelo fato dele ser muito bem produzido e os atores fazerem um papel perfeito, mas para pelo menos por um momento pararem e pensarem em todo o mal que fazem, todos os dias, para tantas pessoas. E apenas espero que as pessoas saiam da sala de cinema um pouco melhor do que entraram. Um pouco mais humanas.

Quando estava preparando o texto para postá-lo aqui, vi uma publicação no blog de uma amiga, falando sobre uma campanha de nome #SomosTodosPeterGraham, criada com a intenção de combater a violência cometida contra homossexuais no Brasil. A ideia é usar a hastag para trazer o preconceito para o debate.

Como achei super pertinente com o texto, resolvi divulgar aqui a campanha. Para saber mais, visitem o blog da Fer.

E sobre o filme, só tenha mais uma coisa a dizer: Estou torcendo para que ganhe todas as indicações ao Oscar, para que o filme seja visto e sua mensagem seja ouvida.

É isso, o que pensam a respeito disso? Viram o filme? Gostaram?

Beijos!

Laury

5 Comments

  1. Amei tudo o que você escreveu e também amo esses filmes de guerra e ainda mais os que são baseados na vida real. Não tive a oportunidade de ver o filme, mas ja ouvi e li muito sobre ele estou querendo muito ver, e tenho certeza que o filme ganhara todos os Oscar!

    Abraços! Mônica Stephany. ________________________________

    Reply
  2. Melissa

    O filme é simplesmente incrível.
    É um filme que faz você ir atrás de mais histórias sobre o gênio Alan Turing, muito bem produzido com atores que interpretaram com tanto talento.
    Eu vi, e recomendo !
    seria tão bom se todas as pessoas parassem e pensassem no que deveria ser prioridades em suas vidas e enriquecessem com essas historia de pessoas que abriram mão do próprio conforto para ajudar a termos um mundo como temos hoje.
    Perfeito ! e reconheço que também chorei.

    Reply
  3. Duda

    Assisti o filme hoje e chorei no final também. Depois li a história de Alan Turing. Chorei de indignação também. Esse filme é muito bom e me fez sentir uma emoção incrivel.

    Reply

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *