Resenhas

[Resenha] O menino do pijama listrado — John Boyne

12358 - Menino de pijama

Um dia eu me apaixonei por história e logo depois perdi boa parte da minha fé na humanidade. A cada século, a cada pedacinho de história é como se o mundo passasse por uma temporada no inferno. Sempre diferente. Sempre devastadora.

Não ouso dizer que o Holocausto foi o pior momento da história da humanidade, mas com certeza foi um dos piores. Um genocídio que começou com a genuína ideia de reerguer uma nação. Porque sim, o que Hitler fez pela Alemanha ao fazê-la deixar de ser um país e transformá-la em “mãe” foi fundamental para ela ser o que é hoje, para não ter se transformado em apenas pó após tantos Tratados que a destruíram. Mas a que preço foi tudo isso? Quanto vale a estabilidade de uma nação? Quantas pessoas morreram por causa de um homem louco, ambicioso, mas ao mesmo tempo extremamente inteligente?

Bem, O menino do pijama listrado é simplesmente esplendoroso. Não é o primeiro e nem o ultimo livro que falará sobre a Alemanha nazista, mas diferente de tudo que eu já li a respeito, esse é um livro que não arreganha a verdade na sua frente e simplesmente mostra o quanto o holocausto foi terrível. Não, esse livro é extremamente singelo e delicado. Ainda que a narração seja em terceira pessoa, ela é uma narração infantil, assim como o nosso protagonista.

Por causa do filme, 99% das pessoas que pegam esse livro já sabem do que ele se trata, mas ele foi um livro construído para não se saber absolutamente nada até que seja realmente necessário. Ele foi feito para vermos o mundo como o Bruno, uma criança de nove anos que um dia descobre que deve mudar de Berlin junto com toda a família, seguindo o pai e seu trabalho.

Fiquei encantada com a decisão do autor de nos cegar e às vezes até parava a leitura para contemplar isso, para pensar em como ele era genial. Enquanto você lê, você se transforma em uma criança, pensa como ela, vê como ela. Algumas pessoas podem pensar que a escrita “infantil” é por inexperiência do autor ou uma escrita ruim, mas tudo não passa de uma estratégia.

Nomes tão marcantes para quem conhece a história são pronunciados e ecoados na mente de uma criança. “Fúria”. “Haja-Vista”. Cada detalhe é pensado para que apenas aos poucos realmente percebamos onde estamos. Para que o horror choque ainda mais pelos olhos de uma criança que chora ao ver alguém apanhando, que não entende porque um médico não pode mais ser médico, porque duas pessoas iguais são apontadas como tão diferentes, porque todos não podem brincar e comer quando querem, porque não podem simplesmente serem “legais”.

Pelas pequenas “dicas” percebe-se que o livro começa no apogeu do nazismos, no seu “melhor momento”, e termina na decadência, quando o mundo se “depara” com todo aquele horror. E o último capítulo me fez lembrar como eu acho hipócrita os países nesse “fim do nazismo”, em como se mostraram extremamente surpresos com a existência dos campos de concentração e todo o horror que acontecia neles. Como em um dia resolveram simplesmente “acabar” com aquilo, prender e julgar todos.

Posso estar errada, mas sinceramente não acho que ninguém sabia da existência dos campos. Acho que foi tudo uma questão de oportunidade. Enquanto Hitler estava bem e comandando era benéfico deixar ele fazer o que quisesse, mas depois, com todo o mundo olhando, era feio apoiar um cara tão inescrupuloso.

Mas enfim, antes de dar fim a resenha, queria comentar o último parágrafo do livro:

“Claro que tudo isso aconteceu há muito tempo e nada parecido poderia acontecer de novo. Não na nossa época”.

Quando li isso, tudo que consegui pensar foi: Será? Podemos não ter campos de concentração como antigamente, mas será que todas essas atrocidades ainda não acontecem todos os dias? Centenas de pessoas morrendo juntas chamam mais atenção, mas será que não são tão preocupantes quanto as que acontecem no nosso mundo de hoje? Ladrões matam por coisas são pequenas quanto um celular, pais matam os filhos por estarem cansados, por quererem uma nova vida, homossexuais são mortos porque não se encaixam nos padrões, jornalistas morrem por falar de mais.

Hoje se morre por tudo, a única coisa que se precisa é estar vivo. Aí eu me pergunto, será que não pode mesmo um menino de nove anos como o Bruno morrer por causa de um mundo injusto com uma realidade distorcida? Semana passada vi a notícia de um menino que foi morto pelo pai que deveria protegê-lo e ignorado pela justiça que deveria ampará-lo. Então, será mesmo que somos assim tão diferentes de todas aquelas épocas deploráveis? Eu acho que não.

Tudo bem, chega de discutir o mundo e a vida, vamos voltar ao livro que é maravilhoso. E que diferente do filme não lhe faz chorar feito uma criança. Porque no filme eu chorei horrores, enquanto no livro apenas deixei uma lágrima escapulir. Mas no filme chorei por dois meninos que haviam morrido, enquanto no livro essa única lágrima correspondeu pela minha revolta, por uma época inteira. Foi a dor de saber que tantas pessoas sofreram e morreram por absolutamente nada, apenas a ambição e loucura de um homem: Hitler, o Führer. Ou em perfeita tradução de Bruno: o Fúria.

Já leram o livro ou viram o filme? O que acharam?

Beijos!

Laury.

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